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Centro de Direitos Humanos Celso Vilhena Vieira

Assassinado o filho do Delegado-Geral

O delegado de polícia Celso Vi­lhena Vieira, 26 anos, filho do delega­do-geral de Polícia, José Osvaldo Pe­reira Vieira, foi baleado por um me­nor na madrugada de ontem no cen­tro de São José dos Campos, quando tentava auxiliar um bêbado caído no chão. Ele morreu na Santa Casa da cidade ao ser submetido a uma cirur­gia no abdomen. A polícia anunciou a prisão de três envolvidos, duas me­nores e um rapaz maior de idade, que estavam juntos no momento do cri­me, praticado segundo eles por V.J.R., ainda foragido.

O assassinato revoltou os mora­dores do centro e provocou a mobili­zação da polícia de todo o vale do Paraíba. Policiais de São Paulo tam­bém colaboram nas investigações e a cúpula da Policia Civil, o secretário da Segurança e o comando da Polí­cia Militar estiveram presentes ao velório e sepultamento ocorrido no finai da tarde de ontem no cemitério Horto São Dimas, em São José dos Campos.

No início da noite, a polícia infor­mou ter identificado e detido Anto­nio Donizete da Silva, o Baiano, 20 anos, preso em companhia das irmãs ASR, 15, e AAR, 14, na Travessa Me­deiros, 80, em Vila Cristina, um bair­ro pobre da periferia de São José. Eles confessaram que o tiro foi dispa­rado por VJR, 17 anos, que dirigia o Volks (FK-6168) furtado domingo em Jacareí e posteriormente abandona­do na Vila São Geraldo.

Antonio Donizette contou ao de­legado Mario da Fonseca Neto que quando chegaram ao local do crime havia um bêbado estirado no chão, tendo a seu lado um motoqueiro e um homem. "Pensamos que estavam importunando o bêbado e fomos aju­dar. Nisso, o homem se levantou e falou que era polícia. Quando enfiou a mão no bolso para tirar o documen­to, o VJR atirou".

A polícia espera prender logo o autor do disparo que matou o delega­do Celso Vieira e montou forte cerco policial nas imediações da Vila Cris­tina. O delegado Mario Fonseca, que identificou mais duas testemunhas do crime, acredita que VJR não dei­xou a cidade e será capturado hoje.

Celso Vilhena Vieira, filho mais velho do delegado-geral José Osval­do Pereira Vieira, era delegado há poucos meses e estava lotado no Mu­nicípio de Monteiro I.obato. Na noite de domingo saiu com a namorada, Nádia Assad, que mora no edifício Maria Lúcia, localizado no final da rua João Guilhermino com a praça Kennedy, no centro de São José dos Campos. O casal voltou pouco antes das 23 horas e, depois da meia-noite. Celso avisou que iria embora pois precisava "dar um pulinho" até Ja­careí.

Nádia contou à polícia e aos pa­rentes do namorado que Celso a dei­xou por volta de meia-noite e meia. Pegou seu Volkswagen que estava estacionado na porta do edifício. Mi­nutos depois Nádia ouviu tiros e saiu para ver o que acontecia, mas não imaginou que fora Celso a pessoa a ser baleada. Na praça há sempre um grupo de rapazes, muitos viciados em tóxicos, e as brigas e tiros aconte­cem quase todas as semanas.

As testemunhas encontradas pe­la polícia, algumas pediram para não revelar seus nomes, descreveram co­mo tudo aconteceu, caso de Oduvaldo Rodrigues Marques. Segundo Oduvaldo, o delegado dirigia seu Volkswagen na contramão. Para evitar dar a volta em um quarteirão, Celso quando saía de madrugada da casa da namorada sempre seguia pe­la contramão no pequeno trecho. Quase no final da rua, o delegado discutiu com um motoqueiro que em velocidade avançou em direção ao Volkswagen, gesticulando e gri­tando.

Odulvado disse que Celso parou o Volks e quando desceu o motoquei­ro fugiu. "Nesse instante — acrescen­tou — parou um Volkswagen cinza com três homens e uma mulher. Dois dos homens desceram e eu vi o rapaz com um documento na mão (era a carteira de delegado). Não deu para ouvir o que falavam e em seguida ouvi quatro tiros. Os homens volta­ram para o carro e foram embora." Oduvaldo conseguiu anotar os nú­meros da placa do Volkswagen, que era furtado.

Além de Oduvaldo, o motorista de táxi Gilson de Souza também ou­viu os tiros e viu o automóvel sair em velocidade. Foi Oduvaldo quem so­correu Celso até a Santa Casa. "O rapaz tinha um tiro na barriga e san­grava muito. Eu o levei no Volkswa­gen dele e pedi ao motorista de táxi que avisasse a polícia. Somente no caminho fiquei sabendo que estava socorrendo um delegado de polícia."

Celso foi baleado a cerca de um quilômetro da Santa Casa e falou com Oduvaldo e com os enfermeiros e médicos ao dar entrada no Pronto-Socorro. Pediu que avisassem o pai e a noiva e chegou a dar o número do telefone da casa de José Osvaldo Pe­reira Vieira, que a enfermeira mar­cou na palma da mão. Celso perdeu sangue demais — cerca de quatro li­tros. segundo os médicos — e a bala acertou o lado direito do abdômen na região ilo-hepática e perfurou a veia cava do fígado, provocando a hemorragia.

Durante três horas os médicos tentaram salvar o jovem delegado de polícia. Pouco depois das quatro da manhã de ontem. Celso Vilhena Viei­ra morreu na sala de cirurgia ao lado dos médicos Rafael Marota e Itamar Ceppio. José Osvaldo Pereira Vieira tinha acabado de deitar quando o telefone tocou. Era a enfermeira da Santa Casa avisando da tentativa de assassinato do filho. No final da ma­drugada, ao saber que Celso acabara de morrer, José Osvaldo não se con­teve e abraçado à esposa disse que “aquela tragédia não poderia ter acontecido com ele".

 

A matéria assinada por  Renato Lombardi foi publicada em 16 de outubro de 1985 na página 16 do Jornal "O Estado de São Paulo"